20 Novembro e o orgulho de nossa negritude!

Novembro/2020

A cada mês de novembro surge no imaginário coletivo brasileiro a justa lembrança de Zumbi Dos Palmares, bem como sendo o período destinado a tratar da consciência negra. É fato que  o assunto toma proporções maiores, mas ainda sim é nitidamente perceptível que por muitos o tema é tratado como uma efeméride momentânea.

Com o passar dos tempos, é clarividente que mais pessoas, empresas e entidades estão abordando a temática negra no penúltimo mês do ano. O acréscimo de debates é extremamente salutar e necessário, porém em muitos casos fica restrito ao discurso, uma postagem em redes sociais ou quiçá uma mensagem de whatsapp a aquelx amigx negrx.

Aliado a isso, contemporaneidade das ações, principalmente em tempos de pandemia permitiu que muitas atitudes ficassem etéreas. Assim, por vezes incute na percepção de muitos que qualquer menção ao novembro negro foi feita apenas como uma estratégia de marketing, resultando em uma abordagem rasa sobre o tema. Ainda é capaz de produzir o silenciamento dos reais agentes para uma igualdade racial, pois não querem que a luta seja confundida como apenas uma ação de marketing.

Mesmo diante da ambiguidade anteriormente exposta, a PMR advocacia não vai se abster de falar sobre o assunto, porque desde a fundação do escritório a premissa da igualdade racial, entre outras, não é mero discurso! Enquanto no Brasil apenas 1% de advogados dos grandes escritórios são pessoas negras, na PMR advocacia o índice é superado em mais de dez vezes.  Não é mera coincidência ou jogo de cena a quantidade de homens e mulheres negras advogando nos quadros do escritório. Diante de um cenário onde mais da metade da população nacional se autodeclara negra, nada mais justo do que um escritório ciente do seu papel na sociedade fazer a sua parte. Ressalva importante precisa ser feita, não está sendo realizado nenhum ato de caridade ao ter no quadro de colaboradores uma quantidade de afrodescendentes infinitamente superior a média brasileira. Todos são extremamente qualificados e possuem vasto conhecimento jurídico, bastou apenas que fosse retirada a capa do racismo estrutural velado para que a intelectualidade negra viesse à tona. 

Não existe coitadismo na frase anterior e sim a percepção no sentido de que basta a abertura de oportunidades para que as potencialidades negras se manifestem. Como expõe Marcelo Yuka, na canção Brixton, Bronx Ou Baixada: “é só regar o lírios do gueto que o Beethoven negro vem pra se mostrar”!

Portanto, enquanto alguns escritórios viram notícia por contratar profissionais negros em novembro, na PMR advocacia essa opção é naturalizada pois não se defende a diversidade...se é a diversidade!  Não pretende-se menosprezar a contratação nessa época do ano, muito pelo contrário, mas dar um passo a frente no combate ao racismo, para que os profissionais não sirvam apenas como meio de propaganda e manutenção do status quo racista vigente. O intuito é que todxs advogadxs negrxs sejam são fonte de informação das maiores redes de comunicação nacional pela excelência e capacidade intelectual, não servindo como meio, mas cumprindo a finalidade descrita na constituição federal de promoção da igualdade racial.

Na Grécia antiga, só eram considerados cidadãos aqueles que participavam e opinavam nas assembleias realizadas em praças públicas, as ágoras. No século XXI, é possível afirmar que as ágoras estão diluídas, porém ainda se mantém desde a antiguidade a exclusão de “certos” agentes. Este é outro ponto onde o racismo atua, quando nota-se a ausência de pessoas negras em cargos e funções onde ocorrem as tomadas de decisões.  Igualdade não significa apenas deixar que estejam entre os demais, apenas participem, é sinônimo de ter voz ativa, fazendo valer o conceito real de cidadania. O escritor norte americano Ta –Nenisi Coates, no livro que escreveu para seu filho de 15 tentando explicar o que significa estar dentro de um corpo negro,  diz que Sonho Americano da casa grande em bairro tranquilo com cercas brancas nunca foi destinado aos detentores de pele escura.

Ao fazer paralelo com a realidade brasileira, o sonho norte americano abordado por Coates assumiu a carapuça do mito da democracia racial. Sendo assim, não existiriam diferenças pela cor da pele, devido a forte miscigenação.  Porém, atualmente sabe-se que não passou de uma falácia inexistência de discrepância de oportunidades entre negros e brancos, pois tanto o sonho americano quanto a democracia racial tupiniquim foram frutos dos homens brancos que estavam e estão nos locais de comando, tanto ao sul como ao norte do continente americano.

Nesse ponto em que se insere a necessidade urgente de afrodescendentes estarem cada vez mais nos cargos em que são tomadas as decisões, pois a prática até então vigente de outros determinarem o que é possível e “justo” para os negros e negras não produziu efeito prático. 

Caetano Veloso disse que o Brasil precisa realizar a segunda abolição, se na primeira existiram figuras importantes dentro do meio jurídico, como Luis Gama, que por meio de ações judiciais libertou vários escravos. No contexto histórico brasileiro qualquer tipo de reforma social realizada de cima para baixo, encontrou sempre algum obstáculo que as impediu. Desta forma, na segunda abolição o único meio possível para quebrar quinhentos anos de discriminação, é que a mudança comece de dentro pra fora. Logo é importantíssimo que os cidadãos negros se assumam como seres capazes e competentes para tomar as rédeas da situação e modificar o racismo estrutural que ainda os mantém atrás dos demais. Seja na ocupação dos cargos políticos, nas funções de gerência das empresas, na liderança comunitária, etc. É preciso que seja dado um passo a frente para mudança, e se os próprios afrodescendentes não o fizerem ninguém mais fará.

Para finalizar, fica a ideia de que o 20 de novembro sirva para celebrar e reafirmar a capacidade extraordinária que é inerente aos oriundos da diáspora africana. Pois é graças a esses seres que existe um país chamado Brasil, a nação deve muito a todos os afrodescendentes, uma vez que literalmente construíram o que se pode chamar de país. Façamos um exercício, quando se pensa em brasilidade o que vem a cabeça?  

Todas as características que qualificam o país sofreram a interferência positiva da negritude, seja na música, arte, culinária, cordialidade, modo se ser, etc. Os negros e negras brasileiros são vítimas da estrutura que os criou, mas jamais podem ser vitimizar. Até porque na história da humanidade nunca existiu um povo que sofreu tanto e ainda assim criou muito mais do que devia, dá até “medo” de pensar o que vai acontecer quando essa balança se equilibrar, é impossível mensurar o que ainda são capazes de fazer!  

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