Resiliência e Compliance

Agosto/2020

Não raras vezes em 2019, ouviu-se a expectativa de que “o próximo ano vai ser ô ano”.

Até que o tão bem falado 2020 chegou como um furacão para bagunçar nossos planos.

Em janeiro, a descoberta da COVID-19 seguiu-se em um avanço pandêmico que prejudicou economias, quebrou empresas, afastou famílias e enclausurou pessoas. Os que permaneceram em atividade tiveram que adaptar a relação com os clientes, a modalidade de vendas, a forma de prestação de serviço, o fluxo com os fornecedores, reorganizar a comunicação com os colaboradores, mudar o jeito de se entender como organização. A rotina ficou diferente atrás de telas, mais rápida sem deslocamento, mais longa com a flexibilidade de horários. Se antes pudesse existir o medo de perder o emprego, hoje é o de perder a conexão do Wi-fi.

Apesar da sensação esquisita que alguns experimentem por causa dessas mudanças, para muitos culminou no desejo há tempos guardado de ter mais autonomia.

Entretanto, os benefícios agregados com o menor rigor profissional carrega o intrínseco cuidado tão necessário com as regras para a manutenção da ordem. E quando me refiro a “regras”, faço menção àquelas que existem para equilibrar nossos comportamentos às expectativas da instituição para conosco: não somente as leis propriamente ditas, mas as normas criadas pela organização e por ela entendidas como essenciais para balizar as condutas dos colaboradores, as relações com terceiros, o diálogo com o poder público, a conexão com os clientes.

O Código de Conduta (ou de Ética, como alguns chamam) e as políticas internas são exemplos de regramentos que, amparados na legislação e nos princípios e valores de uma empresa, servem para conduzir a fluidez da operação, especialmente nas situações de crise. Ao passo que poderiam ser interpretados como meros padronizadores de comportamento, esses documentos servem como fonte de consulta quando há dúvida sobre o que e como fazer em diferentes situações, boas ou ruins.

No cenário atual de crise, instituições tiveram seus valores e princípios colocados à prova, vivenciando diariamente conflitos entre demitir ou reduzir os salários, adaptar contratos com fornecedores e parceiros, conciliar o fluxo de caixa com despesas com equipamentos de segurança contra o vírus, renovar o produto ou o serviço para se encaixar nas novas necessidades dos consumidores. Todas essas situações colocam em desafio a capacidade ética na tomada de decisão, visto que implicam na escolha do menor prejuízo à empresa e às pessoas.

Diante desse contexto, o Compliance se apresenta como uma área institucional descartável àqueles que nunca compreenderam sua importância e o aplicaram corretamente, mas como a menina dos olhos para as organizações que com ele já têm ou vem criando proximidade, estruturando as operações de forma ética, transparente e controlada – seus integrantes conhecem os protocolos a serem obedecidos e reconhecem a importância da manutenção dessa prática para que a atividade funcione regularmente. Da mesma forma, todos podem colaborar para a adaptação desses protocolos, dessas regras, para o melhor andamento dos trabalhos.

E é essa conexão direta entre a capacidade de mudança e o Compliance que torna essa ferramenta tão essencial na superação de crises.

Enquanto pode ser traduzida do inglês, resumidamente, como “conformidade”, representa a possibilidade de enxergar sob novas perspectivas situações inéditas ou diferentes, permitindo a criação de alternativas para problemas que vão surgindo Assim como a ambição é um dos combustíveis do crescimento pessoal, o Compliance é a alavanca para a evolução de uma organização.

Errar faz parte da trajetória percorrida até o objetivo e a compreensão que construímos em cima dos tropeços diferencia a repetição desses da solução futura para uma mesma situação. Relatórios, controles internos, dupla checagem, modelos de processos estão constantemente na rotina das empresas, de modo que seu propósito de existir é banalizado, mitigando o senso crítico a seu respeito, mas são os resultados advindos do processamento dos dados e informações instrumentalizadas nesses registros que vão determinar a necessidade e o formato de cada um.

Isso porque o erro não necessariamente precisa ter uma consequência grave, ser palpável ou irreparável para entrar na lista de tarefas que precisam ser resolvidas no dia. Muitas vezes, o erro se reveste de acerto quando não temos uma meta bem traçada, aparece quando o resultado não superou uma expectativa irreal, passa despercebido quando não existem parâmetros para avaliar os efeitos de uma tomada de decisão.

Não precisa deixar sequelas para ser relevante, ser injusto ou crítico para ser corrigido.

Pequenas mudanças de rotina, alterações de fluxos e contratos, novos meios de diagnósticos são recursos intrínsecos ao Compliance, ou seja, à análise criteriosa de como funciona a operação, de como são feitas as escolhas para ela e quais são seus impactos no negócio e na vida daqueles que o constroem.

Sair da zona de conforto é difícil e aprender algo diferente daquilo que conhecemos é desafiador, mas quando se vivencia uma situação de crise, esse conhecimento nos é imposto sem pedir licença. E, na verdade, o tão mal falado 2020 trouxe mudanças para alavancar nossos planos.

Assim como o vírus ressurgiu em nova versão para se espalhar pelo mundo como antes não o havia feito, organizações precisam se transformar para lidar com essa força biológica e seus impactos nas relações entre países, na atividade econômica, no funcionamento do comércio, na vida diária de cada indivíduo. Estar em Compliance dá a vantagem para que possam construir essa transformação com segurança e foco; ser Compliance impulsiona sua evolução natural e constante com grande potencial para superar crises.

Por Rafaella Nerung de Noronha.

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